Eu aceito e você?

Eu aceito minha condição. Não gosto, mas aceito. E você, como tem encarado as situações que tem vivido? Aceitar e aprovar parecem a mesma coisa, mas não são.

E aí, beleza?

Aceitar uma situação ou condição não é a mesma coisa que aprovar aquela aceitar-aprovarsituação ou condição. O aceitar está ligado ao seu entendimento daquele fato, já o aprovar está ligado ao seu sentimento a respeito daquilo.

Agosto de 2015, após 17 anos de um grave acidente, 10 grandes cirurgias no olho, pelo menos por enquanto a luta está perdida, a luta por enxergar, pela visão. Depois de tentar de todas as formas, consultar profissionais em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e até mesmo fora do Brasil, em Miami, entre agosto de 2015 e meados de 2016, entendi que a luta está perdida.

Nesse período de aproximadamente 1 ano e diversas tentativas, como cirurgias e procedimentos menores, e muito esforço e dedicação, tanto da minha parte, quanto dos médicos, amigos e familiares, chegou um determinado momento em que foi necessário entender que, hoje, não há mais nada a se fazer.

Talvez você também já tenha enfrentado situações em que, mesmo após fazer tudo que estava ao seu alcance, não foi possível chegar no resultado que você desejava, certo? Eu gostaria muito que o final dessa história tivesse sido diferente, porém não foi o que houve.

Na semana passada, quando estava fazendo uma palestra ao Grupo Pão de Açúcar, fui perguntado sobre a superação, que mesmo depois de tantas dificuldades e desafios eu estava ali contando minha história e inspirando pessoas a superarem seus desafios.

De onde vinha essa vontade, essa força?

E pensando para responder, lembrei de uma conversa que tive com um amigo a respeito de aceitar e aprovar aquilo que acontece com a gente. Você sabe qual a diferença?

Confesso que no começo foi meio confuso para entender essa diferença, porém após refletir e usar exemplos da minha vida, o entendimento foi mais fácil. Aceitar está ligado a forma que nós encaramos o que houve, a nossa luta, nosso esforço e tudo o que nós fizemos para mudar aquilo e não está ligado diretamente ao resultado final. O Aprovar sim, ele está ligado diretamente ao final da história e qual sentimento trazemos quando pensamos no ocorrido.

Como assim Gabriel?

Foi exatamente essa pergunta que fiz ao meu amigo. E agora trago um exemplo real para te ajudar a ter um novo olhar para o aceitar e o aprovar o ocorrido.

Hoje eu digo que aceito a perda da visão, mas não aprovo.

Sendo bem sincero com você, desde o acidente sofrido em 1998 que deixou graves lesões no meu olho esquerdo e me tirou a visão do olho direito, a perda total da visão era uma preocupação, algo moderado, mas uma preocupação. Sempre segui todas recomendações médicas, me cuidei, porém era algo que poderia ocorrer. Eu imaginava que seria algo a longo prazo, quando estivesse lá pelos 60 anos. Só que as vezes a vida vem e nos dá uma surra e muda tudo aquilo que estava indo bem. Depois de uma hemorragia, algumas cirurgias e procedimentos, chegou-se a conclusão que, com o que existe hoje, não há nada a fazer para tentar recuperar a visão.

Nesse período de aproximadamente 1 ano, desde a hemorragia até o entendimento que não haveria mais nada a se fazer, houve muita luta, muito esforço e dedicação para recuperar a visão. Visita a 5 especialistas, em 4 cidades e em 2 países e a avaliação de todos foi parecida. E digo a você, com segurança, o que estava ao meu alcance e de todos os envolvidos, como família, amigos e médicos, foi feito.

E é olhando sob esse aspecto que eu disse anteriormente que eu aceito a perda da visão. Tudo que poderia ser feito para tentar reverter o quadro foi feito. Se eu tivesse deixado de tentar o que eu, naquele momento, poderia ter tentado, aceitar seria muito mais difícil. Além de estar vivendo uma situação muito delicada, carregaria junto o peso da dúvida. E se eu tivesse tentado isso ou aquilo, será que o resultado final seria outro? Esse peso eu não carrego e certamente isso me ajudou a aceitar essa nova condição.

Agora, falando no aprovar a situação. O aprovar, de forma resumida, está ligado a você gostar ou não daquilo. E eu te digo, também com muita segurança, que não gosto da minha condição atual. Se pudesse fazer algo para voltar a enxergar, eu o faria. Só que esse algo não existe hoje e a vida tem que continuar. Eu não posso ficar preso a essa situação e deixar meus objetivos e sonhos de lado.

Então, sendo bem objetivo:

– Aceitar: Entender que aquela é a sua nova realidade. Seja por uma doença, demissão ou separação. Os motivos são inúmeros, porém é o que tem para hoje. Faça tudo que está ao seu alcance caso você queira mudar aquilo, mas se não conseguir mudar, entenda que a vida tem que continuar

– Aprovar: Gostar ou não gostar do que houve não deveria te paralisar. Não aprovar ou não gostar de algo não significa que você precisa ficar em uma cama e desistir de tudo. Aceite a realidade e busque ferramentas para viver a vida. Valorizar o que você tem vai ajudar muito. Eu não tenho a visão, mas tenho saúde, amigos, família, um filho maravilhoso e tantas outras coisas boas. Me apegar ao que eu tenho me dá muita força para continuar.

Tenha você também um novo olhar para as situações da sua vida!

Grande abraço.

Barreiras, ajudam ou atrapalham?

Barreiras fazem parte do dia a dia de todos. Algumas são necessárias, outras não. Algumas nos ajudam e outras nos atrapalham. Elas interferem na nossa qualidade de vida.

E aí, beleza?Barreiras ajudam ou atrapalham

As barreiras estão presentes no nosso dia a dia e algumas são necessárias, para a nossa proteção. Porém outras são limitadoras e acabam interferindo no nossa qualidade de vida.

As barreiras podem ser de diversas formas. Dois exemplos são as barreiras físicas e as psicológicas.

Um muro, uma cerca são barreiras físicas que muitas vezes nos protegem.

Por exemplo, em uma obra, são colocadas barreiras para limitar a entrada de pessoas em algumas áreas de risco. Infelizmente, nós precisamos de muros e cercas no entorno de nossas casas para nos proteger e nos dar segurança. Indústrias instalam barreiras em alguns equipamentos para proteger e evitar acidentes de trabalho com seus funcionários. No futebol ela protege o time em uma cobrança de falta. O medo é uma barreira psicológica que, muitas vezes, nos protege de correr riscos.

Por outro lado existem muitas barreiras que nos limitam, as vezes até nos impedem de fazer algo.

Muitas barreiras nós criamos em nossa mente e nos limitam, outras são barreiras criadas e impostas pela sociedade e prejudicam muito a qualidade de vida, principalmente das pessoas com deficiência.

Nessa semana, no dia  21 de setembro, é celebrado o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência e na Lei Brasileira da Inclusão, Lei nº 13146/2015, é apresentado um conceito interessante de barreira, que é:

Barreiras: qualquer entrave, obstáculo, atitude  ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como  o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade  de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à  compreensão, à circulação com segurança, entre outros, classificadas em:

– Barreiras urbanísticas: as existentes nas vias e nos espaços públicos e privados abertos ao público ou de uso coletivo;

– Barreiras arquitetônicas: as existentes nos  edifícios públicos e privados;

– Barreiras nos transportes: as existentes nos sistemas e meios de transportes;

– Barreiras nas comunicações e na informação: qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou  impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por  intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação;

– Barreiras atitudinais: atitudes ou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em  igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas;

– Barreiras tecnológicas: as que dificultam ou impedem o acesso da pessoa com deficiência às tecnologias;

E essas barreiras afetam diretamente a Acessibilidade. A mesma Lei traz o seguinte conceito para Acessibilidade:

Possibilidade e condição de  alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários,  equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação,  inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações  abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona  urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida;

Como, com tantas barreiras, uma pessoa com deficiência vai ter autonomia e segurança?

Para mim, a primeira barreira que precisa ser destruída e que terá efeito sobre todas as outras é a Barreira Atitudinal. Essa barreira provoca atitudes ou comportamentos que impedem ou prejudicam a participação social da pessoa com deficiência em  igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas.

Essa barreira está impedindo que as demais barreiras sejam destruídas. Enquanto a pessoa não se conscientizar que a Acessibilidade é boa para todos, inclusive ela própria precisará de acessibilidade em algum momento da sua vida, ela não vai agir para que o local onde ela mora, trabalha ou frequenta seja acessível.

Talvez alguém que está lendo pense, mas quando eu vou precisar de acessibilidade Gabriel?

Como diz a Lei, a acessibilidade é muito útil para a pessoa com deficiência para pessoas com dificuldade de locomoção. Pode ser uma limitação temporária que você tenha como uma perna quebrada, cirurgia no joelho, problema na coluna, enfim, são inúmeras as situações que a acessibilidade facilitaria muito a vida.

Para você que é pai ou mãe e já precisou ou precisa andar com um carrinho de bebê, a acessibilidade facilitaria sua vida?

E tem uma que, caso você não morra jovem, você vai ficar idoso e fará muito uso da acessibilidade. Mas para que exista essa possibilidade, é preciso uma mudança de atitude, de comportamento. Só com a quebra da barreira atitudinal será possível quebrar as barreiras urbanísticas, arquitetônicas, nos transportes, nas comunicações e nas tecnologias.

Tenha você também um novo olhar para as barreiras atitudinais.

Grande abraço.

Sustentabilidade. Será mesmo?

Sustentabilidade vem sendo discutida em muitas empresas. Será que ela está sendo realmente realizada?

E aí, beleza?

A empresa X é Sustentável. O Grupo Y tem foco na sustentabilidade. Esses termosSustentabilidade são utilizados para enfeitar banners e apresentações de Power Point em reuniões e convenções. Talvez você já tenha ouvido falar em sustentabilidade, em ser sustentável no seu local de trabalho, certo? E quais ações efetivamente estão sendo colocadas em prática?

A Sustentabilidade é um conceito relativamente recente que vem sendo fortemente utilizado por empresas em suas campanhas publicitárias, tanto interna, quanto externamente, para buscar um diferencial competitivo. A sustentabilidade foi muito relacionada à questões ambientais, mas para uma empresa ser sustentável ela precisa trabalhar muito além da questão ambiental.

Ela tem como base 3 pilares, Social, Econômico e Ambiental. Os três têm a mesma importância e relevância. Para uma empresa, um empreendimento ou um projeto ser considerado sustentável, precisa atender a esses três aspectos. Deve ser algo que considere a preservação do meio ambiente, ter condições de se manter economicamente sozinho e atender necessidades sociais, ou seja, do ser humano e do seu meio.

Trabalhei por 7 anos com empreendimentos de geração de energia limpa, como Pequenas Centrais Hidrelétricas, Parques Eólicos e Usinas Hidrelétricas. E existem muitos que são contrários a esses empreendimentos por entenderem que são prejudiciais ao meio ambiente e as pessoas que vivem nas suas proximidades. E realmente alguns são, mas existe muita informação sem fundamento sendo divulgada e utilizada para impedir a implantação desses projetos.

Por se tratar de energia limpa, podemos afirmar que todos são sustentáveis?

Não! Alguns são sustentáveis, outros não. Não é por ser um empreendimento que gera energia limpa, ou seja, sem utilizar combustíveis fósseis, que ele pode ser considerado sustentável. O mesmo se aplica a produtos e serviços do nosso consumo diário, como detergentes, roupas etc.

Será que por ser um produto biodegradável ele é necessariamente sustentável? Será que a empresa que fabrica esse produto tem como valor a sustentabilidade?

E se a empresa que se preocupa tanto com o meio ambiente utilizar mão de obra infantil?

Essa é uma situação hipotética que ilustra que a sustentabilidade não está ligada unicamente ao aspecto ambiental.

Trazendo para o pilar Social, existe um lado muito importante a ser observado. Dentro da questão que envolve o ser humano, será que a empresa está realmente se preocupando?

Dentro desse tópico, muitas empresas que se dizem e se consideram sustentáveis, existe um grande preconceito quando se fala na contratação de pessoas com deficiência.

E eu te pergunto, a inclusão está ligada ao aspecto Social? Podemos dizer que uma empresa preconceituosa é sustentável?

A falta de acessibilidade também impacta o lado Social da sustentabilidade. Um local, um prédio ou uma instalação, um produto que não é acessível para todas as pessoas pode ser considerado sustentável? A empresa tem uma preocupação com o meio ambiente, mas seus produtos ou serviços não podem ser utilizados por uma pessoa com deficiência e ela estampa em suas campanhas publicitárias que se preocupa com a sustentabilidade. Isso é correto?

Para se considerar Sustentável uma empresa deveria:

– Se preocupar efetivamente com questões ambientais. Entender que a empresa utiliza recursos naturais, porém esses recursos deveriam ser utilizados de forma racional, pensando na preservação do meio ambiente para as gerações futuras.

– Entender que para ser sustentável, a empresa deve se manter com recursos financeiros, gerando receita suficiente para manter suas atividades.

– Ter realmente uma preocupação com o aspecto Social, com as pessoas. Tanto as pessoas que trabalham na empresa, quanto as pessoas que utilizarão seus produtos ou serviços. As pessoas que são impactadas pela atividade da empresa também devem ser consideradas nesse aspecto, como vizinhos da fábrica, quem mora nas proximidades de locais onde são retirados recursos naturais, etc.

Quando você ouvir algo relacionado a sustentabilidade, analise com cuidado. Muitos estão deixando de cumprir leis e proporcionar condições adequadas aos seus funcionários. Muitas pessoas qualificadas estão sendo barradas de trabalhar por puro preconceito. Grandes empresas, que mesmo com a obrigatoriedade de contratar pessoas com deficiência, preferem pagar multas à realizar pequenas adaptações em suas instalações e contratar pessoas com deficiência.

Tenha você também um novo olhar para a sustentabilidade.

Grande abraço.

Rumo à Liberdade!

Já imaginou um cego em uma Harley-Davidson na estrada? Rumo a Liberdade foi o passeio inclusivo realizado em parceria entre o Grupo de Donos de Harley-Davidson  e a ONG Antes do Ouro no último sábado, 02/09, em Curitiba. Confira como foi!

E aí, beleza?passeio-inclusivo-rumo-a-liberdade

Muitos falam em inclusão, direitos das pessoas com deficiência, porém são poucos aqueles que realmente fazem a inclusão.

No último sábado, 02/09/2017, foi realizado o Passeio Inclusivo Rumo a Liberdade promovido em parceria pelo HOG The One Chapter, Grupo de Donos de Harley-Davidson de Curitiba e a ONG Antes do Ouro, que trabalha com atletas Paralímpicos. Esse Grupo de Motociclistas desenvolve algumas ações sociais e essa foi mais uma, que ficará marcada na memória dos participantes.

A proposta do evento foi proporcionar às pessoas com deficiência a experiência de andar em uma Harley-Davidson e aos seus donos uma oportunidade de mostrar a outras pessoas o estilo Harley-Davidson de vida. O Grupo percorreu aproximadamente 70 km, considerando ida e volta, deslocando-se de Curitiba até Campo Largo e na sequencia retornou a Curitiba. O passeio durou cerca de 45 minutos e participaram aproximadamente 30 motocicletas.

Lembro que na minha infância eu gostava muito de motos, principalmente de corridas como Motocross e Supercross, que ocorriam com boa frequência na cidade onde eu morava e nas cidades próximas. Andava muito de bicicleta e imaginava ser um piloto. Adorava ir na pista de bicicross com os amigos.

Mais de 20 anos depois, sem enxergar nada, tive a oportunidade de desfrutar de uma experiência fantástica, proporcionada pelo Grupo de Donos de Harley e a ONG Antes do Ouro. Foi uma mistura de adrenalina com memórias da infância. Uma sensação de liberdade tomou conta ao sentir o vento no rosto.

Estar sobre uma Harley-Davidson, que pesa 450 kg, equipada com motor de 1800 cc. Curtindo um AC/DC, com certeza ficará gravado para sempre.

Priscila Gomes, que é Psicóloga e deficiente visual também participou do Passeio e disse que no início sentiu um pouco de insegurança e medo, mas após o início do trajeto a sensação de liberdade tomou conta das suas emoções. Ela disse que, mesmo não sendo ela quem estava pilotando a motocicleta, realmente se sentiu parte daquilo que estava acontecendo.passeio-inclusivo-rumo-a-liberdade-2

Priscila e eu éramos os únicos com deficiência visual. Outras pessoas com deficiência, como amputados e cadeirantes,  que participaram do evento relataram experiências parecidas.

A lição muito forte que ficou dessa experiência é que a pessoa com deficiência pode estar em todos os lugares. Sabemos que existem limitações, como falou Priscila, um deficiente visual não vai participar de algo assim pilotando a moto, mas pode perfeitamente participar como garupa e sim, estar incluído de fato no passeio.

O Passeio Inclusivo reforçou a importância da Acessibilidade Atitudinal em todos os locais e atividades. A pessoa com deficiência pode sim participar ativamente de situações que muitos não conseguem enxergar como, mas na grande maioria das vezes, o que precisamos é só um pouco de boa vontade.

As soluções são muito mais simples do que muitos imaginam e ainda bem que temos pessoas que sabem disso e desenvolvem eventos como o Passeio Inclusivo Rumo a Liberdade.

O lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser estar. Com Acessibilidade Atitudinal as barreiras são destruídas!

Aproveito para, mais uma vez, agradecer aos organizadores do evento a grande oportunidade de ir para a estrada sobre uma Harley-Davidson!

Tenho você também um novo olhar para inclusão!

Grande abraço.